Sou uma pessoa que esperou 53 anos para fazer o Camiño de Santiago.
Aliás, era um sonho que estava já guardado numa caixinha e lá ficaria até a uma próxima encarnação. E talvez nessa outra vida a mochila e os ténis fossem postos e lá partiria…nunca iria saber.
Mas após um grande caminho de vida, muito grande mesmo e com muita, muita dor foi possível por pés ao caminho, e foi tão mágico, tão mágico, tão impactante e tão desafiador que me encontro aqui a escrever, a expressar e partilhar tudo o que vivi.
Era para caminhar em grupo, de repente todos tinham intenção de começar a caminhar rumo a Santiago de Compostela. Mas é neste ponto que cada caminho que está reservado para nós, começa. Uns por umas razões, outros por outras lá defendiam como se devia caminhar, eu senti que nenhuma daquelas razões era a minha. E não foi, enquanto continuaram a falar eu comecei a preparar-me fisicamente, eu tinha decidido – iria fazer o caminho sozinha e partiria do local que sempre desejei.
E quando se toma esta decisão começamos o caminho, é a partir daqui que o Universo começa a alinhar tudo, tudo começa a fazer sentido, as pessoas certas para nos prepararem aparecem. Tinha algumas dúvidas e eis que me aparece um espanhol no meio do nada que já tinha feito 7x o caminho, toca de fazer perguntas, só que não!!! Foi escutar e tudo o que aquela pessoa me disse ecoou de tal forma que ele esteve presente no meu caminho, segui à risca todas as suas indicações.
“Ana, nunca tomes banho de manhã, os pés têm de estar sempre secos, não te laves com mais nada a não ser com sabão azul e branco, hidratar, hidratar e hidratar é o teu foco e deixa os pés arejar e não terás uma única bolha!” – E NÃO TIVE!!! Foram 277km não sei o que isso é.
“Ana, quando inicias uma etapa, nunca, mas nunca mesmo olhes para trás (olhei uma única vez, desculpa Nacho;)) o caminho é para frente e é apenas isto que interessa”.
E “nunca contes os km que já fizeste, só te interessam os km do dia em que estás…os de ontem não interessam, e os de amanhã muito menos, apenas os de hoje”. E esta foi a grande lição que aprendi, viver no Agora!
Aprendi que é tão simples no caminho fazê-lo, o desafio é transportá-lo para a “vida real” e é um exercício diário. O não olhar para trás é porque o passado não o podemos alterar, mas podemos mudar o presente, o que estamos a viver naquele momento. E a outra grande lição é que o caminho dá exactamente, mas exactamente o que necessitas de trabalhar e não aquilo que achas que precisas.
E com a minha experiência posso afirmar que o caminho começa no minuto em que decidimos que vamos caminhar, tudo começa a encaixar-se de tal forma que parece que não somos nós que estamos no comando da nossa vida. E tudo o que vamos decidir fazer é exactamente o que precisamos no caminho.
Escolhi sair do Porto, da Sé, foi sempre o meu sonho (✅check!), mas gostaria de ter saído de bicicleta (um dia vou!), e lá fui rumo ao Caminho Português da Costa, descobri que o Porto é enooorme, principalmente quando pões algo numa mochila que escolhes carregar e não precisas (as bagagens que nos fazem doer as costas na vida!). Quando vi Matosinhos fiquei feliz. E segui, e a minha primeira etapa finalizou numa terra com um nome lindo – A Ver o Mar (por favor, não façam o que eu fiz, é totalmente insano – 46km). E o dia seguinte foi novamente, insano em termos de km, mas eu precisava de ganhar 2 dias e consegui. Optei por sair do Caminho Português da Costa, não por não ser lindo, mas porque o caminho assim o quis. E fui para o Caminho Central, posso dizer que quando sai de Lisboa, pedi um caminho solitário para introspeção total e porque ia deixar pesos (pedras) de vida, tive os dois primeiros dias o caminho que pedi, serei eternamente grata. Posso dizer que no 2º dia achei mesmo que tinha acontecido alguma coisa no país e eu não sabia. Esteve sempre a chover, caminhei praticamente 6 horas até ver o primeiro humano.
E aconteceu muita coisa mágica, calculei mal os km e manifestei uma boleia e ela apareceu (ainda hoje mantenho contacto com os anjos que estavam destinados). Quando cheguei a Valença estava a caminhar há 12 horas (por favor, não façam!) estava exausta, mas havia na minha chegada alguém destinado a dar-me uma mensagem. Juro que até ali eu nunca tinha ouvido falar da Variante Espiritual, eu não fazia ideia do que era. Mas o Hugo “decidiu” que “Ana a tua sensibilidade é tão especial a VE é para ti, vais ser tão feliz”, ok, não vou dizer que não senti que estava numa experiência daquelas estranhas. Aquela pessoa estava a falar comigo há minutos… só me ocorreu perguntar onde iniciava essa variante e qual a terra limite para decidir (Pontevedra). Posso afirmar que o meu coração decidiu na hora, mas havia de perguntar ao cérebro se concordava (felizmente concordou antes de Pontevedra;))
Quando chego ao centro de Valença perdi-me (foi a 1ª e única vez😉) e comigo perdem-se mais 2 peregrinos. Um desses peregrinos segue e eu com ele. Caminhámos juntos até Santiago. Partilhei tanto, mas tanto com esta pessoa que parecia que já o conhecia desde que nasci. Coisas muito, mas mesmo muito intimas foram passadas numa base de confiança assustadora – o caminho faz-te cruzar com as pessoas que estão destinadas a cruzarem-se, todos estamos a cumprir as nossas missões. Uma das primeiras coisas que disse ao caminho, sim porque a dada altura desta experiência falamos com o caminho…não, não é loucura, é algo que é mágico, a intensidade do momento da vivência é de tal forma elevado que há um empoderamento real. Mas disse ao caminho logo que me cruzei com esta pessoa, “eu não quero, estou há 2 dias super feliz e agora tenho de caminhar com um down, este homem é super triste”, lá aceitei resignada…e foram 5 dias de partilhas de vida, e sim consegui cumprir a minha missão, os olhos já não eram tristes e o down foi deixado para aí em Porriño. E depois vamo-nos cruzando com todas as pessoas que o Universo alinhou para o nosso caminho e foi Aveiro, Viana, foi Porto, Sintra e Cascais e teve piada que durante o caminho tive dificuldade em decorar os nomes mas são a Maria, o Rui, o Vitorino, o rapaz do chapéu arco-íris, a Fernanda e a Ilda.
E a pessoa que me foi destinada viver a experiência de forma mais imersiva – o Sr. de Aveiro – o Tó.
A Variante Espiritual é uma experiência tão gratificante que o meu coração transborda só de pensar. O bosque mágico da etapa Armenteira- Vila Nova de Arousa se eu já estava enamorada pelo meu caminho, ali foi um amor com uma profundidade inexplicável. Eu senti-me uno, eu achei mesmo que iria aparecer um duende e estava tudo bem. O som das quedas de água, o verde intenso, a neblina que saía da água, os pássaros a voar junto à água, era perfeito, o dia, hora, momento, local, pessoas, era a perfeição, qualquer folha que fosse deslocada, notava-se. Quando vivemos estas experiências com todos os sentidos transforma-nos, nós não saímos daqui iguais.
E a grande lição entre muitas outras, é de que nada, mas nada que planeámos para o caminho acontece. Aqui acontece tudo o que tem de acontecer se nos abrirmos à experiência. Decidi em Lisboa que chegaria a Santiago sozinha, não fez qualquer sentido fazê-lo no caminho. Fiz um filme na minha cabeça de como iria ser a minha chegada, nada, mas nada mesmo igual, nem sequer o trailer. Não chorei, não ri, apenas uma sensação de vazio me inundou, do tipo, acabou!!! Só quando vi um ciclista entrar num pranto, toda a minha armadura emocional caiu e foram 4 dias a chorar, emocionava-me por tudo.
Quando fui buscar a minha Compostela disse que tinha apanhado uma boleia (todas as pessoas me disseram para não dizer isso, porque ninguém sabia, lamento não sou assim!) e para descontar os km cerca de 25km, a VE tem 27km que não contam, ficou pago. E nunca me vou esquecer deste diálogo: – – “Então e qual foi o caminho que fez?
– Fiz o meu, não me apeteceu seguir nenhum do principio ao fim.
– Parabéns minha querida, muito poucos peregrinos chegam aqui com a coragem de fazer o seu próprio caminho”.
Posso dizer, para que fique registado, eu sou (ou era) na vida uma pessoa organizada, ao nível extremo. E depois de ter um word e um excel com tudo milimetricamente analisado, decidi não levar e fui à ultima da hora comprar um mapa em papel, e foi com esse mapa que fiz o caminho. Não fazia a mínima ideia onde iria dormir, houve um dia que era quase real que dormiria num banco do jardim e não estava nada preocupada. Eu fiz coisas no meu primeiro caminho que me colocaram a vida em perspectiva. E quando nos entregamos totalmente à experiência, nunca mas nunca mais cabemos na caixinha de onde saímos. Eu vi a minha caixinha quando saí do Porto e passado uma semana aquela caixa já não era minha, eu já não cabia nela. Fiquei a perceber quando me disseram um dia “sabes porque sabes e uma vez que sabes, nunca mais vais conseguir dizer, que não sabes”.
Decidi que não iria partilhar milimetricamente as etapas físicas, apenas a das emoções (até à data do inicio do caminho era extremamente racional). Decidi partilhar o que senti porque é algo que sou extremamente grata ao Universo e ao Caminho tudo o que vivi, senti e me foi dado partilhar. Alguns dirão é apenas um caminho, outros dirão são caminhadas, outros arranjarão outros itens de caracterização, apenas partilho se sentirem o chamamento de o fazer, simplesmente vão e vivam a experiência. Estejam abertos para tudo o que o caminho tiver para entregar, não controlem nada, simplesmente vivam o momento e depois partilhem com outros a vossa experiência. O espirito do caminho é a experiência de cada um de nós e a forma como a vivemos e partilhamos. A minha foi simples, mágica e transformadora.
Por essa razão em forma de gratidão caminharei em Dezembro 2023 na semana do Natal e Passagem de Ano, numa experiência profundamente espiritual como forma de retribuir toda a minha felicidade.
Actualização: caminhei de 21.12.2023 a 01.01.2024 pelo caminho Primitivo foram 343km intensos, desafiantes, profundos, introspetivos, mas fiz o caminho mais mágico, um caminho peregrino durante o natal e passagem de ano – uma experiência altamente espiritual. 2Buen Camino!

Boa noite. Linda esta sua descrição do Caminho. Revi-me muitas vezes nas suas palavras. Chorei, ri, contemplei toda a sua descrição. Mas o Caminho é mesmo isto. Ultreya 🙏🕊️🚶
Paula Francisco
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Muito obrigado, Paula. Que bom que consegui passar o sentimento que se vive no Caminho, é mesmo isto. Buen Camino!🙏✨
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